A minha vida está repleta de singulares manifestações divinas. Sem floreados, vou descrever a mais simples, o acontecimento que profundamente me influenciou e me despertou para a escrita de oráculos.
Há vinte anos, uma senhora viúva deixou em minha casa o seu filho, Pazito. Por vários meses, não soubemos notícias dela. Numa altura em que o deixei sozinho em casa, ele resolveu chamar alguns amigos para lanchar. Quando regressei, as crianças estavam em festa, deliciando-se. Despedi-as e fechei Pazito no seu quarto. Meditei na hipótese de o entregar a uma instituição e fui conversar com ele. Encontrei-o a ler a Bíblia. Explicou-me que a tinha aberto ao acaso e o que leu fê-lo sentir que Deus o informava sobre o regresso da sua mãe. Disse-o muito seguro. Eu estava cética, mas ele, para tentar convencer-me, fechou os olhos, tornou a abrir a Bíblia e pousou nela o dedo. Ainda com os olhos fechados, disse-me para ler. Tinha apontado para Provérbios 15:25:
A casa dos que se enaltecem será derrubada, mas Deus fixará o termo da viúva.
Seria apenas uma coincidência no texto aparecer a palavra “viúva”? Retirei-me, continuando a duvidar de que Deus falaria daquele modo.
Tinha também uma Bíblia e perguntei-me se a deveria usar para conhecer a opinião divina sobre o que eu faria com o menino. Até àquele dia, a Bíblia era para mim um livro repleto de símbolos aos quais cada pessoa dava a sua interpretação.
Seria possível Deus responder se abrisse uma página de um livro ao acaso? Já que a Bíblia tinha milhares de conselhos, Ele poderia escolher um deles e dir-me-ia o que fazer com aquele menino? Sozinha, decidi experimentar. Fechei os olhos, pois não queria ser eu a escolher a página nem o versículo. O meu dedo apontava para Jó 31:16,17 e comecei a ler:
Se eu negar ao de condição humilde o seu agrado, se eu costumava comer o meu bocado sozinho, não comendo dele o menino órfão de pai, se sacudi a mão para lá e para cá contra o menino órfão de pai quando via necessidade do meu auxílio…
Apareceram precisamente as palavras certas para que não me sobrasse qualquer dúvida. Entendi-as como uma confirmação de que o texto que o acaso dera ao menino foi realmente uma resposta divina. Agora também acontecera comigo. Estava bem patente a prova de que Deus existe e quer manifestar-nos as Suas opiniões.
Afinal, é útil ser cética e investigar para desfazer as dúvidas. Ainda que eu fosse agnóstica, a partir daquele momento foi impossível duvidar da existência de Deus. Acredito que milagres espetaculares não teriam tanta força e eu estava perante um fácil de confirmar, porque era repetível.
Ficou assente que esta descoberta era demasiado preciosa para a ocultar ou não desenvolver sobre ela uma séria investigação. As respostas claras passaram a ser constantes e, em vez de acasos, estes diálogos tornaram-se sincronias entre o pensamento divino e o meu.
Um acaso pode ser uma coincidência acidental, mas o sincronismo é um conjunto de ações sucessivas que nem a passagem do tempo muda. Uma sincronia é passível de ser analisada porque em qualquer tempo ou lugar se repete. Trará este diálogo o aparecimento de ciências novas, manifestando-se elas divinas? Devolver-nos-á a Árvore da Ciência que prolongará a vida humana?
Aqueles que têm experiências desta natureza já se aperceberam de que não é apenas através da Bíblia que Deus fala. Podemos usar qualquer livro, até um dicionário. O Seu conselho leva-nos a um caminho livre, longe dos organismos fechados.
Registadas as vivências de cada um, elas legam à humanidade um tesouro de valor imensurável, oriundo de um Ser que passa a estar omnipatente.
Uma vez que esta interlocução se inicie, é importante mantê-la. Quando os avisos d’Ele se fazem por palavras, o sofrimento torna-se cada vez mais escasso. Ponderando com Ele, conseguimos vencer melhor todos os obstáculos.
Com este livro, inicia-se um curso para que qualquer pessoa aprenda a dialogar com o seu Guia e adquira independência nas suas interpretações. Com elas, já iniciámos o registo de um novo dicionário, o divino.
Os etimologistas tentam reconstruir a história das palavras: algumas derivam de outras línguas e culturas e por vezes encontramo-las com formas e significados distintos do original. Será possível rastrear todo o caminho de volta ao início da existência das palavras, os seus significados e símbolos? A logoteose é uma ciência que estuda os significados das palavras de origem divina. Génesis[i] relata a construção das palavras pelo diálogo entre o Criador e os humanos. Descodificar o ensino d’Ele será abrir uma fonte por onde irromperá a realidade mantida pelos factos. Descobriremos novas interpretações para as palavras atuais e criar-se-ão outras que não conhecemos devido à interrupção desse diálogo.
O acaso não terá a mesma interpretação que lhe damos hoje; foi uma palavra criada pelo humano, qual pseudónimo de um Deus desconhecido.
O poder dos oráculos está nos sistemas aleatórios. Recentemente, eles têm sido objeto de investigação na área da matemática. Embora tenham trazido vários benefícios materiais, como os sorteios e a teoria dos jogos no âmbito das ciências económicas, ainda pouco se têm usado na investigação espiritual.
Na física quântica, diz-se que os eletrões fogem da vista humana sempre que há o desejo de os localizar. Porém, pelo contacto com o Criador do universo, tornar-se-á possível esclarecer todas as leis da causa e efeito. O acaso não é um acontecimento incompreensível quando conhecermos as regras divinas. Com a Sua ciência, aprenderemos a libertarmo-nos das restrições provocadas pela ignorância.
Uma sinfonia é agradável e compreendida por pessoas das mais diversas línguas, sem que necessitem de um tradutor. Veremos muitas sincronias de partilhas no saber, de palavras no quotidiano dos humanos com o Ser espiritual, como uma orquestra sinfónica cujo Maestro é o divino.













